espiral 3C - comportamento consumo cultura

Month

November 2010

2 posts

Sobre a ideologia do consumo: uma discussão necessária

Nos últimos anos percebe-se um crescimento dos movimentos que se auto proclamam adversários do consumo, ou anti consumo. Apesar de reconhecer a validade e importância de tais atitudes no questionamento da elevação da categoria de consumo a uma posição social e cultural central, creio ser necessário refletir sobre a profundidade e o enfoque dado à capacidade transformadora da realidade que o consumidor agência realmente tem em suas mãos. Digo isso não como desestimulo ou desqualificação de quem luta contra a chamada sociedade de consumo, mas sim como uma crítica que abre possibilidade para que se fortaleçam os argumentos e pontos de vista da resistência.

Primeiro é preciso situar os pressupostos de tais movimentos (aqui deixados propositalmente como uma categoria ampla). Simplificadamente, pode-se dizer que todos partem da percepção de que o ideal do consumo enquanto prática libertadora a partir da escolha individual fracassou em melhorar qualitativamente a sociedade. Temos mais e somos cada vez mais infelizes. Junto com esta constatação há uma crítica implícita, ou explícita, ao modelo político neoliberal, aos valores individualistas e ao poder invisível do livre mercado. O aumento da pobreza, a persistência da fome, o analfabetismo, a violência, a degradação da natureza, entre outros, são indicadores (números para os cartesianos!) deste processo que vendeu a promessa do bem estar geral pelo crescimento econômico e a distribuição das riquezas pelo mercado, e que entregou miséria e desigualdade em proporções nunca antes testemunhadas. Estes fatos provavelmente já seriam suficientes para qualquer pessoa com o mínimo senso de justiça sentir-se incomodada, legitimando questionamentos acerca do rumo que tomamos enquanto sociedade ocidentalizada na qual durante todas as crises as palavras de ordem dos governantes para seu povo é: continuem comprando!

Aqui cabe uma pequena ressalva conceitual. Criticar o consumismo é diferente de criticar o consumo. Há uma constante sobreposição entre estes dois termos. Consumir é um aspecto básico da vida. Ninguém vive sem consumir minimamente ar, alimentação e água. Já consumismo é o termo utilizado para designar o excesso de consumo, o consumo além das necessidades e desejos aceitáveis. Percebe-se que há uma dificuldade inerente neste processo de classificação, principalmente porque “aceitável” trata-se de uma categoria moral. Portanto, ser anti consumo é um contra-senso, é ser contra a própria vida. Ser contra o consumismo parece legítimo, mas é necessário discutir melhor e definir o que é o consumismo quando se fala nele, pois esta não é uma categoria dada e clara, como muitos aparentam pensar. Há uma tendência de naturalizar o uso de certos termos a partir da cultura, algo que pouco auxilia no aprofundamento das discussões sobre os temas.

Dessa última constatação decorre outro problema mais importante e mais central no assunto aqui tratado. Grande parte das críticas ao consumismo é feita com um viés culturalista marcante, ou seja, partem da idéia de que uma suposta cultura positiva, a do consumo inteligente, seria capaz de suplantar uma cultura negativa, a do consumismo. Este, sem dúvida, é um ponto crucial nesta reflexão. Criticar a partir da cultura é ignorar a construção ideológica que cria, reproduz e fortalece a própria cultura que, por sua vez, alimenta a ideologia, criando um circuito fechado e perverso sem rosto, sem nome e sem forma. O apagamento deste traço ideológico do capitalismo é resultado de um processo histórico que acabou legitimando a noção de um sistema natural e universal, incorporado como algo inerente a humanidade, espontaneamente gerado e constituído. Disso decorrem absurdos justificadores como as teorias que falam de uma ontologia agressiva e competitiva de homens como seres das cavernas predadores, sendo o capitalismo apenas uma sofisticação desta tendência que está dentro de nós (nos salvamos pelo contrato social).

Decorre disso que ao utilizar a cultura como ponto de partida, os movimentos que se intitulam contra anti consumistas perdem a força e o enraizamento da crítica, tornando-se, em sua origem, reprodutores e legitimadores da ideologia do consumo por não a discutirem em momento algum, seja por ignorância, seja por inocência. Pensando desta forma, falar em consumo consciente, consumo sustentável, consumo ético, ou consumo político sem perguntar por que e como nos tornamos uma sociedade de consumidores, torna-se um argumento sem peso, pois parece questionar o que é visto socialmente como natural. Algo como tentar mover uma pedra gigante com o uso das mãos. Talvez, se os movimentos anti consumo conseguissem expor às pessoas o ridículo de sua ignorância ou de seu cinismo, a discussão mudaria de nível, tornando-se muito mais convincente do que alardear o fim eminente do mundo para egoístas que mal se preocupam com o futuro de seus filhos além da solidez da herança financeira que deixarão como legado. Se o fenômeno do consumismo for visto pelo prisma da ideologia-cultura pode ser factível pensar em um mecanismo que faça uma alavanca coletiva capaz de finalmente mover a enorme pedra de seu lugar.

Para concluir, evitando receber o rótulo de pessimista ou fatalista, é importante salientar que a crítica da crítica feita aqui não invalida os movimentos anti consumo culturalistas. Por mais limitados que sejam em termos de mudanças sociais efetivas, tais ações chamam atenção para nosso maior desafio enquanto civilização, encontrar os meios de continuarmos existindo no futuro. Atrair atenção para este fato tem seu valor e merece respeito, assim como criar espaços de reflexão acerca dos comportamentos sociais e individuais. O tema não é novo, já foi dito inúmeras vezes que o capitalismo é um sistema que encontrará o fim em si mesmo, porém, torna-se algo cada vez mais urgente para quem se preocupa com a justiça (no sentido mais amplo) e com a permanência da vida na terra.

Nov 5, 20101 note
#capitalismo #consumo #reflexão
Inovação: para quem?

Trilha Sonora do Post: Ice Cream Man - Tom Waits

Inovação tornou-se um jargão dos mais utilizados por todas as pessoas, do pipoqueiro ao presidente da coca-cola, passando pelo vendedor de sanduíche na praia e pelo desempregado. Uma busca por inovação no google retornou aproximadamente 4.230.000 resultados. A lógica de funcionamento da velocidade de criação e destruição do capital acelera negócios, lançamentos e declínios. Quem não cria algo novo desaparece. Quem não se atualiza fica velho. Quem não corre é atropelado. Este é um dos principais mecanismos do sistema de produção capitalista, pois garante um fluxo constante de novos bens sendo colocados no mercado, renovando desejos e alterando percepções sobre necessidades. A obsolescência é o fantasma gordo e rejeitado que, colocado ao lado da brilhante e sedutora novidade, torna-se uma questão de classe, de separação social por indicadores produtos/marcas/versões. A obsolescência pode ser tanto tecnológica quanto perceptiva (normalmente são as duas ao mesmo tempo). Pelo lado da tecnologia, fabricam-se novas versões ampliadas dos produtos, fazendo com o que o velho logo não seja mais capaz de desempenhar suas funções. Isto é facilmente observável nos computadores, videogames, televisores, etc. Já a obsolescência perceptiva é trabalho (em grande parte não intencional) dos designers que, ao modificarem o estilo e materiais dos produtos, fazem com que as versões mais antigas sejam evidenciadas como tal. O velho torna-se rapidamente identificável como fora de moda, feio, inadequado. Isso por si só já é algo para se pensar, pois tudo que chega ao final do ciclo de vida deve ser descartado. Entretanto, há uma outra conseqüência perversa que muitas vezes passa despercebida. Esta mesma lógica, parcialmente racional no caso dos produtos (que ao menos pode ser explicada pela idéia de “viver melhor” - seja lá o que esta qualificação melhor quer dizer), acaba contaminando todo tecido social e cultural pela transversalidade característica do discurso. Assim, indivíduos também tornam-se obsoletos, como também sentimentos, amigos, paixões, trabalhos, idéias, obrigando as pessoas a acelerarem suas próprias vidas, tornando-se instáveis e inseguros pontos de vista em constante transformação. Nos venderam a idéia pós-moderna de múltiplas identidades, como se fosse possível tornar-se outra pessoa, ou vestir outra máscara, como na troca das vitrines com as roupas da estação. Qual o preço que pagamos para viver assim? Como criar e fortalecer valores (algo esquecido por alguns) em uma sociedade que escorre entre os dedos como a areia de praia? Como construir uma nova forma de relacionamento menos destrutiva com o meio ambiente se ele é apenas um recurso para inovação? Como melhorar nossas relações humanas se amizades tem medida de desempenho? Como sermos nós mesmos se nos dizem que temos que ser “quem funciona” (ao estilo mais bizarro de uma revista como a Você S.A.)? Eu me preocupo seriamente com isso e percebo em minha própria subjetividade a força desta contradição, pois também tenho desejos e quero ter um televisor de alta definição. Saber não é suficiente para mudar, mas já é um passo a mais com relação à ignorância ou inocência da simplificada escolha de medir o bem estar pelo consumo e pela inovação.  

Nov 3, 2010
#capitalismo #crítica #inovação

October 2010

1 post

Rio de Janeiro e 5x Favela

                                

   

Estive no Rio mais uma vez semana passada. Desnecessário falar bem de lá, a cidade maravilhosa continua linda, mesmo que o sol não tenha aparecido nenhuma vez. No último dia da minha estadia fui ver 5X Favela - Agora por Nós Mesmos, um filme escrito, dirigido e realizado por jovens talentos moradores das favelas. O resultado são cinco filmes de 20 minutos passados em sua maioria na zona norte da capital carioca, lugar no qual grande partes dos visitantes como eu e moradores da zona sul apenas enxergam da janela do carro quando passam na linha vermelha.

Fui ver o filme no Unibanco Artiplex de botafogo e percebi algumas coisas engraçadas. Os filmes tem algumas críticas ao “playboys da zona sul” no que tange a discriminação social, uma que outra delas em forma de piadas, as quais, para minha surpresa, os próprios playboys da zona sul acharam engraçado. Não sei se riram de nervoso, mas riram alto. O fato é que a maneira como é retratada o cotidiano da “comunidade” (expressão que o próprio filme utiliza) é muito interessante. As histórias intercalam violência, humor, festa, bebida, infância, cotidiano, dificuldades econômicas, e samba naquela tradicional mistura tipicamente brasileira. Para mim, é exatamente a convivência espacial desta “biodiversidade” cultural, pegando o conceito emprestado, que nos marca enquanto povo. Por isso este filme vale a pena ser visto. Para quem conhece o rio, é um outro lado, um lado menos assustador, mas não menos viceral, do que o frenético e alucinado retrato estilo guerrilha urbana de tropa de elite. Fica a dica. 

http://www.5xfavela.com.br/

Oct 5, 2010
#dica #cinema #cultura

September 2010

6 posts

Por um mundo com menos certezas

Para quem escrevo? Escrevo para quem quiser ler. Escrevo para mim mesmo. Para meu outro eu. Alguém. As certezas humanas são instrumentos para redução de ansiedade. A verdade das coisas é uma ilusão. Não existe objeto isolado da subjetividade (pelo menos não para nós, humanos). Vivemos em uma realidade que é uma enorme teia multidimensional de relações, tecido social de sentidos compartilhados. Eu sou eu, mas sou muitos, e o outro são múltiplos. A ciência cartesiana é sonho prepotente, como se pudéssemos encontrar uma verdade última a partir do método e da construção do conhecimento. Quem ainda não percebeu que critérios de autoridade diversos (títulos e titulações) são utilizados como subterfúgio para tentar direcionar nossas vidas deveria acordar. O sono da perfeição acabou. Estamos sendo chamados para enfrentar nossa condição humana, imperfeita e frágil frente ao universo. Mais livre das falsas certezas podemos caminhar com mais tranqüilidade, com menos imposições. Não existe um caminho, existe caminhar. Cada passo pode ser celebrado como uma pequena vitória, se for um passo consciente de si mesmo. Esteira rolante ou pé após pé? Você tem medo do que? O fim é inevitável para quem vive, então aproveite a jornada… 

Sep 30, 2010
#pensamento #texto #reflexão
o sonhador

image

Eu tenho uma visão, uma esperança

Uns chamam de loucura

Outros de utopia, demagogia

Eu chamo de sonho

 

Um pequenino e inocente sonho meu

Um sonho de um novo mundo

Ou uma nova forma de ver o velho

Reinventar, ou começar de novo

O efeito é o mesmo, movimento

Mudança, cambio, (r)evolução

 

Esse novo mundo tem como base valores humanos

Respeito às diferenças, compreensão

Pessoas buscando se conhecer

Se aceitar, encontrar seu próprio caminho

Assumindo sua individualidade

Sua responsabilidade no processo evolutivo

 

E lá, por serem humildes e generosos,

Os habitantes desse lugar não se acham maiores que ele

Não havendo uma relação de exploração com o planeta

Todos são parte da natureza e têm consciência

Que deus está dentro de cada um

E que a felicidade está muito mais próxima do que parece

Contida na simplicidade de um sorriso franco, de uma palavra amiga,

Da contemplação de um por do sol, da lua cheia

Do mar, do ar, da montanha, do céu

Das infinitas possibilidades

 

Porque lá o que realmente gostamos são das coisas naturais

Que têm inestimável valor e nenhum custo

Pois o quanto você tem não é medida de sucesso

E sim aquilo que você faz, quem você é

 

Ah e esse mundo sem nome

Esse mundo…

É um mundo muito louco

Para aqueles que vendaram seus corações

E compraram seu lote de pseudo felicidade

No reino frenético do consumo

Então se você sonha comigo, cuidado!

Algumas pessoas podem ficar agressivas

Ao verem seu castelo de areia desmanchando

Diante de seus olhos pouco acostumados

A ver uma luz que não seja o brilho do ouro

Portanto tenhamos paciência, o processo é lento

E nem todos estão prontos para simplificar suas vidas

 

 

Esse é meu sonho, um sonho de liberdade

E eu te convido a sonhá-lo junto

Sep 22, 2010
#Pensamento #texto
sustentabilidade: verdades e mentiras

Esta é a base do meu ponto de vista apresentado ontem no debate “Sustentabilidade: Verdades e Mentiras” realizado pelo IJA no instituto Goethe contando com a participação de Amyra El Khalili, Antônio Libório Philomena, José Truda Palazzo e eu. Foi uma interação muito interessante. Confiram. 

“Minha análise parte do princípio, da realidade de um sistema produtivo capitalista que tem na maximização do lucro pelas firmas e na maximização da utilidade pelo consumidor seu mecanismo básico de funcionamento. Cabe lembrar que este não é um sistema natural, sendo fruto de um processo histórico e cultural do desenvolvimento da civilização que se foi historicamente criado pode ser historicamente modificado.

Neste sistema, o capital econômico é a mola propulsora da sociedade. Precisamos expandir a produção para continuar crescendo, para gerar mais empregos, para continuar consumindo, para continuar expandindo a produção. É uma lógica circular e suicida. Como já dizem faz tempo, o capitalismo é auto destrutivo e cria seu próprio fim enquanto se desenvolve.

Dentro do sistema capitalista existem outras formas de capitais, como o capital social, o capital simbólico e o capital natural. O capital econômico é, e sempre foi, predominante, utilizando-se do capital natural como fonte de recursos. Entretanto, com o crescimento da preocupação ambiental, surgiu uma divisão entre estas duas formas de capital, ou entre os ambientalistas e os economistas ortodoxos. De um lado temos os primeiros liderando uma discussão sobre o fracasso do capitalismo e sobre a impossibilidade de manter o padrão de vida atual por muito tempo (o que tem seu fundo de verdade), de outro temos os economistas defendendo a inovação e a lógica do desenvolvimento como essenciais para o desenvolvimento social e a continuação da satisfação das necessidades humanas (o que também está certo) – sendo o uso dos recursos naturais otimizado pela tecnologia ao longo do tempo. 

O fato é que nenhuma explicação que enxergue só por uma perspectiva será capaz de dar conta de um problema tão complexo como este. Até porque, em ambas abordagens existem problemas de coerência interna. Deixar o sistema capitalista de lado no estágio atual de desenvolvimento mundial implicaria necessariamente em perdas sociais. Manter o sistema capitalista no ritmo crescente de produção e consumo nos levaria a um colapso ambiental e institucional. O radicalismo de nenhum dos lados ajuda. O que se faz necessário é um amplo diálogo calcado em perspectivas transdisciplinares que trabalhem na convergência de pontos de vista. Os capitais econômico e natural precisam se harmonizar (ao máximo possível) para acabar com a idéia de conflito e de opostos hoje vigente. Sempre me lembro daquela frase: “dividir para conquistar”, é assim que estamos sendo levados a um ponto cada vez mais perigoso.  

Mas é claro, sejamos realistas, da maneira como vivemos a sustentabilidade não é nada mais que um conceito utópico, pois para produzir, algum nível de interferência no meio ambiente sempre será necessário. Mesmo assim, mesmo sendo inatingível, a sustentabilidade deve ser buscada, norteando a idéia de reduzir os efeitos do homem no planeta. Para isso, por um lado, é preciso educar os consumidores, dando a eles a capacidade de decidir em qual empresa ou em qual ideologia produtiva vão investir seu dinheiro. Comprar é também um ato político, uma espécie de voto que pode punir (não compra) ou premiar (compra e recomendação), e isso deve ser incentivado através da disponibilidade de informações claras e confiáveis. Por outro lado, é preciso educar também o empresário, dando a ele condições técnicas de modificar seu processo ou produto para um patamar menos agressivo para a saúde e o meio ambiente. Para completar, necessitamos de fiscalização e incentivos governamentais. Colocar critérios ambientais nos editais de financiamento de pesquisas, inovação e empreendedorismo e incentivar boas práticas por redução tributária……. ninguém disse que seria fácil…….

O fato é que não existe formulismo nem solução institucional milagrosa, é uma construção, é isso que estamos fazendo agora, neste momento. Que a caminhada esteja apenas começando…

Sep 15, 2010
#reflexão #paradigma #capitalismo #sustentabilidade
Comida e Personalidade

                          

Tenho uma relação especial com a gastronomia, especialmente por minha formação familiar e origem étnica, todo Italiano, assim como todo Libanês, adora uma boa mesa. Com o tempo e a evolução dos meus hábitos culinários comecei a perceber certas coisas interessantes. Uma das sutilezas que virou uma teoria de base empírica (coisa de pesquisador, observar o mundo até tirar algumas hipóteses em meio ao cotidiano) é sobre a relação entre o tempero da comida e a personalidade do cozinheiro. Pessoas de caráter forte tendem a fazer comidas bem apimentadas e condimentadas, assim como pessoas mais amenas tendem a temperar menos os alimentos.

Isso também tem uma clara relação cultural. Se compararmos a culinária dos países latinos com a culinária européia, percebemos a diferença que a temperatura e a disponibilidade de ingredientes trouxe para a mesa. Mas isso não é tudo, porque acho muito raso pensar na cultura e no social como sistemas impostos e determinantes de formas de comportamento. São guias de referência, às vezes tomando conta, mas às vezes atuando como fracas luzes iluminando o caminho. O individual sempre terá vez, e ao impacto destas características na culinária a que me refiro aqui.

Soma-se a personalidade uma questão de humor, aquela oscilação contextual que ocorre com todos nós. Quem costuma freqüentar o fogão vai entender. A comida absorve a carga emocional do cozinheiro. Cozinhar brabo, ansioso, nervoso, aflito, gera um resultado por vezes exageradamente temperado e/ou fora do tempo certo de cocção. Cozinhar relaxado, alegre, feliz, com vontade, traz para o prato a satisfação com o ato, o respeito pelo alimento, a calma no preparo, o cuidado na mistura ideal dos temperos, o equilíbrio que toda boa comida deve expressar.

Resumindo, na próxima vez que for cozinhar, se não estiver em seu melhor estado, ligue uma música, sirva uma dose de whisky e relaxe antes de transferir para comida um pedaço de si…     

Sep 13, 2010
#culinária #cultura
Filme "a origem"

Inception, ou “a origem”, é um filme, no mínimo, interessante. A idéia central do enredo não é necessariamente nova: entrar em mundos paralelos a partir de alguma conexão neurológica/tecnológica, ao estilo de matrix e avatar. O que se propõe como algo diferente é que a jornada não é para algum outro local fantasioso, um programa de computador ou para o corpo de outra pessoa, mas sim dentro da própria mente, mais especificamente no mundo dos sonhos.

Neste caso, as viagens de imersão no subconsciente pelos “viajantes” tiveram um caráter funcionalista, tarefas a serem cumpridas em prol da espionagem internacional e da máfia. Este é o toque Hollywoodiano que dá o ritmo alucinante de suspense e aventura para o filme que gruda o espectador à história, o que é muito bem feito, diga-se de passagem. É muito interessante a questão dos medos, culpas e prisões do inconsciente que aparecem no filme de maneira simbólica a partir de imagens projetadas pelos sonhadores, referências diretas à teoria psicanalítica. Como ponto crítico ficou somente uma impressão de que a idéia geral poderia ser explorada em outro contexto, de uma maneira mais surreal, desvinculada do velho e típico esquema gangster internacional. Mesmo assim, estapequena ressalva não tira a originalidade, competência e beleza do filme. Vale a pena ser visto, preferencialmente no cinema, pela grandiosidade de algumas cenas.

veja o trailer:

Sep 9, 20101 note
#cinema #dica #cultura
Produção e Marx - base

“O modo de produção capitalista funda-se sobre a apropriação privada dos grandes meios de produção e de subsistência (instrumentos de trabalho, terra, víveres) pelos capitalistas (ou seja, os proprietários de grandes somas de dinheiro). Eles utilizam parte de seu capital para comprar a força de trabalho de uma outra classe social, o proletariado, obrigado a vender essa força de trabalho, pois não tem mais acesso aos meios de produção para produzir sua subsistência. É essa relação antagônica entre o capital e o trabalho assalariado, tornada possível pela generalização da produção mercantil (a transformação dos meios de produção e da força de trabalho em mercadorias) que funda o novo modo de produção.”

MANDEL, Ernst. O lugar do marxismo na história. São Paulo: Xamã, 2001.

Sep 2, 20101 note
#crítica #capitalismo #consumo #filosofia

August 2010

17 posts

Marketing Verde ou Fachada Verde?

A crescente preocupação das empresas com a questão ambiental é evidente no aumento das propagandas de apelo ecológico. Na última edição dos melhores do ano da Exame, no final de 2009, praticamente todos os anúncios tinham este viés. Neste cenário, percebe-se um movimento mundial de controle e regulação das propagandas “verdes”, com o intuito de separar aquelas que realmente cumprem aquilo que divulgam das que simplesmente fazem alegações vazias e irresponsáveis. Exemplos impressionantes, como empresas de extração mineral se dizendo sustentáveis (sim, quem mesmo vai colocar de volta o que foi retirado?) proliferaram a um ponto tal que países como EUA, Australia, Inglaterra e França saíram na frente, discutindo e orientando as boas práticas do marketing verde através da indicação do que não deve ser feito. Isso deu origem à expressão greenwash, traduzidalivremente como “fachada verde”, ou seja, propagandas verdes que tem como objetivo mostrar um lado ecologicamente correto que as empresas não praticam. Em uma pesquisa realizada pela consultoria terrachoice nos EUA em 2008, foi demonstrado que 98% dos mais de 2.219 produtos pesquisados infringiram pelo menos algum dos princípios do greenwash em suas embalagens ou propagandas.

Recentemente fizemos um estudo similar na escola de administração da UFRGS para a disciplina de gestão ambiental para mestrado e doutorado. A metodologia utilizada foi a análise de conteúdo em um ano de anúncios da revista Exame (27 edições), tomando como base escalas internacionais para mensuração do greenwash. Os resultados demonstram que ainda há muita desinformação das empresas atuantes no Brasil com relação às boas práticas de marketing verde, com 94% dos anúncios avaliados ferindo pelo menos algum dos princípios publicados em guias internacionais para evitar o greenwash.

Abaixo apresentação sobre o tema produzida para a disciplina referida acima.


Marketing verde e Greenwash

View more presentations from espiral 3C.

Aug 30, 2010
#marketing #consumo #crítica
Play
Aug 27, 2010
#marketing #interatividade #internet
SURPLUS e a Dialética do Controle


Anthony Giddens, sociólogo britânico, dedicou sua vida ao pensar da sociedade em que vivemos. Um dos conceitos centrais de sua obra é a idéia da dialética do controle, tema deste texto. Por dialética aqui entende-se método do diálogo, o ir e vir de pontos e contrapontos que criam novas vias de pensar e compreender o mundo. A dialética trata do movimento constante entre diferentes perspectivas, por vezes antagônicas, sem nunca chegar há um local definitivo. É uma lente para enxergar o mundo, entre tantas outras que existem, uma lente que dá conta das transformações constantes e dinâmicas de nossa vida, dos esforços que existem nos embates de pontos de vista, da metamorfose ambulante de opiniões. 

Voltando-nos a Giddens, para ele, a dialética do controle é a idéia segundo a qual “todas as formas de dependência oferecem recursos por meio dos quais aqueles que são subordinados podem influenciar as atividades de suas superiores”. Em outras palavras, todo movimento gera conseqüências não premeditadas, pura dialética. Quanto mais eu evoluo tentando dominar, mais ferramentas eu crio para os que são dominados resistir.

Interessante que ontem enquanto assistia o excelente “vídeo manifesto” chamado “SURPLUS: Terrorized Into Being Consumers” (veja abaixo) pensei nele como mais um exemplo do que essa dialética do controle efetivamente significa. Os mesmos meios (midiáticos) utilizados para propagar mensagens de conformismo podem disseminar a transformação. A propaganda serve para as minorias (se organizarem em torno de uma “idéia comunidade”), assim como serve para vender mais fast food em um mundo super saturado de informações e taxa de colesterol. Surplus faz uma crítica aberta e exposta à sociedade de consumo, defendendo a tese de que nos “venderam” uma idéia de liberdade que na verdade é uma prisão. O papo não é novo, mas a linguagem visual é extraordinária. A montagem e edição do filme, cheio de imagens de arquivos sincronizadas com a música, utilizando loopings de trechos de textos para marcar um ritmo quase hipnótico, está à altura de qualquer produção cinematográfica de alta qualidade. O ponto é que, quando a indústria evolui, quando os meios se sofisticam e se popularizam a partir da necessidade de baixar os preços dos produtos para atingir mais pessoas, o potencial comunicativo e informacional se descentraliza. Câmeras full hd com custo acessível, softwares de edição de imagem descomplicados, criatividade, conteúdo e internet como meio de divulgação podem causar um estrago proporcionalmente tão eficiente na busca por seus objetivos quanto mais uma produção mela cueca hollywoodiana atrás das cifras.

Na periferia, nas margens, a resistência cultural opera com a geração anterior da tecnologia lançada do centro. Com o tempo da inovação cada vez mais acelerado, as possibilidades são imensas… e vão crescer! Tudo depende de seu propósito…

Assista abaixo o vídeo SURPLUS legendado em português.

Aug 24, 2010
#capitalismo #consumo #crítica #reflexão
Alguns pensamentos não envelhecem

(re) nascer

Sob a luz incandescente uma figura imóvel está sentada na cadeira olhando a memória, assistindo o filme que conta a história de sua vida, composta por suor, sorrisos e respeito. Sempre fora ótimo em inventar narrativas, criar fantasias, refazer o mundo à sua maneira. Era praticante convicto da arte do sonho, vulgo sonhador, e com a mente voava distâncias. Estava procurando uma fuga da realidade, da real cidade, do complexo, da complexidade. Observava o mundo girando conectado aos satélites, aquilo sim era loucura. Afinal porque trabalham tanto? Porque jogam suas vidas na rotina? Porque se deixam dominar tão facilmente, seduzidos pelo brilho da prata, vendendo a alma ao diabo por esmolas… Ao olhar para a imensidão do universo, como pode o ser humano achar que está sozinho? Somente tamanho egoísmo poderia explicar a origem da ganância (essa petulância de achar que riqueza é acumulo de capital). De que adianta ter tanto dinheiro se no fim dos dias vamos todos ao mesmo lugar, ficaremos todos iguais uma vez mais, reduzidos ao pó. Ele ria, se um dia fosse vender sua alma não seria por dinheiro, nem por poder, isso era secundário, um jogo mundano que não fazia sentido, já que para ele a verdadeira fortuna é a sabedoria capaz de te libertar (e ser livre é sua única chance de ser feliz..).

No reflexo do espelho via a si mesmo, seria ele visto da mesma maneira pelos outros? Ao silenciar a mente parado por alguns instantes sentia vontade de transformar, deformar, recriar…. refazendo aquilo que é inédito, para mais uma vez renascer…..

por Paulo Abdala (escrito em algum dia perdido de 2008)

Aug 23, 2010
#reflexão #Pensamento
Tendências em Pesquisa de Mercado

Slides sobre novos métodos e inovações na pesquisa de mercado produzidos para o MBA de maketing da Unisinos.

Tendências em pesquisa de mercado por paulo abdala

View more presentations from espiral 3C.

Aug 17, 2010
#pesquisa #inovação #marketing
A Ilha - Aldous Huxley

A dica de hoje é fantástico livro “A Ilha” de Aldous Huxley. A primeira reação é achar que é o livro sobre o filme homônimo, não é, pelo menos não exatamente. Alguns traços são similares, é uma civilização isolada buscando viver da melhor forma possível, mas as semelhanças param por aí.

O livro inicia com um repórter chegando em um acidente a uma ilha “perdida”. O desenrolar da estória é ele conhecendo o local, seu povo, sua cultura e seus costumes. A ilha é um sonho de civilização, um médico inglês e um raja indiano juntaram-se no ideal de criar um local que sintetizasse harmoniosamente o melhor do ocidente o e melhor do oriente.

O resultado é um livro que prende atenção, inteligente e cheio de pequenas sacadas que nos fazem pensar sobre nossas vidas. Uma delas, para dar uma palinha, é que alguns pássaros na ilha foram treinados para falar “aqui e agora” a todo instante, lembrando as pessoas sobre a necessidade de viver no presente. As crianças também tem o direito de fugir de casa, oficialmente, indo passar uns dias com outros casais que elas escolhem, não podendo ser reprimidas por isso. Entre muitas outras pérolas….

Esse é daqueles que tu pega e não quer mais largar até o fim….

Aug 16, 20101 note
#livro #cultura #dica
Jung e o auto-conhecimento

Abaixo reproduzo um trecho de um livro do Jung chamado “Arquétipos e inconsciente coletivo”. Neste texto ele fala de uma maneira lírica, profunda e bela sobre a busca do auto conhecimento, o encontro com a própria sombra e a necessidade de explorar outras realidades para vencer certos obstáculos. 

“Verdadeiramente, aquele que olha o espelho da água vê em primeiro lugar sua própria imagem. Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fiel mente o que quer que nele se olhe; ouseja, aquela face que nunca mostra mos ao mundo, porque a encobrimos com Ά persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira.

Esta é a primeira prova de coragem no caminho interior, uma prova que basta para afugentar a maioria, pois o encontro consigo mesmo per tence às coisas desagradáveis que evitamos, enquanto pudermos projetar o negativo à nossa volta. Se formos capazes de ver nossa própria sombra, e suportá-la, sabendo que existe, só teríamos resolvido uma pequena par te do problema. Teríamos, pelo menos, trazido à tona o inconsciente pes soal. A sombra, porém, é uma parte viva da personalidade e por isso quer comparecer de alguma forma. Não é possível anulá-la argumentando, ou torná-la inofensiva através da racionalização. Este problema é extrema mente difícil, pois não desafia apenas o homem total, mas também o ad verte acerca do seu desamparo e impotência. As naturezas fortes - ou de veríamos chamá-la fracas? - tal alusão não é agradável. Preferem in ventar o mundo heróico, além do bem e do mal, e cortam o nó górdio em vez de desatá-lo. No entanto, mais cedo ou mais tarde, as contas terão que ser acertadas. Temos porém que reconhecer: há problemas simplesmente insolúveis por nossos próprios meios. Admiti-lo tem a vantagem de tor nar-nos verdadeiramente honestos e autênticos. Assim se coloca a base para uma reação compensatória do inconsciente coletivo; em outras pala vras, tendemos a dar ouvidos a uma idéia auxiliadora, ou a perceber pensa mentos cuja manifestação não permitíamos antes. Talvez prestemos aten ção a sonhos que ocorrem em tais momentos, ou pensemos acerca de acon tecimentos ocorridos no mesmo período. Se tivermos tal atitude, forças auxiliadoras adormecidas na nossa natureza mais profunda poderão des pertar e vir em nosso auxílio, pois o desamparo e a fraqueza são vivência eterna e eterna questão da humanidade. Há também uma eterna resposta a tal questão, senão o homem teria sucumbido há muito tempo. Depois de fazermos todo o possível resta somente o recurso de fazer aquilo que se fa ria se soubéssemos o quê. Mas em que medida o homem se conhece a si mesmo? Bem pouco, como a experiência revela. Assim sendo, resta mui to espaço para o inconsciente. Como se sabe, a oração exige uma atitude semelhante. Por isso tem um efeito correspondente.

A reação necessária e da qual o inconsciente coletivo precisa se ex pressa através de representações formadas arquetipicamente. O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra. A sombra é. no entanto, um desfiladeiro. um portal estreito cuja dolorosa exigüidade não poupa quem quer que desça ao poço profundo. Mas para sabermos quem somos, temos de conhecer-nos a nós mesmos, porque o que se segue à morte é de uma amplitude ilimitada, cheia de in certezas inauditas, aparentemente sem dentro nem fora, sem em cima, nem embaixo, sem um aqui ou um lá, sem meu nem teu, sem bem, nem mal. É o mundo da água, onde todo vivente flutua em suspenso, onde co meça o reino do “simpático” da alma de todo ser vivo, onde sou inseparavelmente isto e aquilo, onde vivencio o outro em mim, e o outro que não sou, me vivência

Aug 13, 2010
#pensamento #reflexão
netnografia: etnografia para comunidades virtuais

Slides sobre NETNOGRAFIA, método de pesquisa que adaptou para comunidades virtuais os preceitos da etnografia, produzidos para o MBA de Marketing Estratégico da Unisinos. Para saber mais sobre etnografia ver post anterior. 

Netnografia por paulo abdala

View more presentations from espiral 3C.

Case de Pesquisa da Danone Water utilizando multimétodos, diversos métodos de pesquisa para responder a mesma pergunta. Muito interessante em planejamento, execução e formato. Tem netnografia no meio…

Danone Water World Community

View more presentations from guest3a1940.

Aug 11, 2010
#pesquisa #inovação #interatividade #internet #etnografia #antropologia
Crises of Capitalism - RSA Animate

Assunto essencial que muitos evitam: a crise do sistema capitalista. A coisa toda foi engendrada com tanta perícia que diversas pessoas inteligentes acreditam cegamente que o capitalismo e a competição são características naturais dos seres humanos, esquecendo e ignorando que vivemos em uma estrutura social e econômica que foi engenhosamente criada ao longo de centenas de anos. 

Mesmo sem uma solução de escala global para frear os efeitos perversos do desenvolvimento, é possível criar micro espaços de mudança de paradigma, começando por nossas próprias vidas. 

Detalhe: reparem no tempo do vídeo - 11:11

Aug 10, 20101 note
#capitalismo #paradigma
Despachado para a Índia

Despachado para a Índia é um filme divertido e bem feito que aborda um tema contemporâneo, a terceirização de serviços de callcenter para países distantes. Todd é um legítimo americano, a “corporate man”, que se vê transferido para a Índia com a missão de tornar um callcenter que faz pedidos de porcarias (produtos) vendidos via catálogo nos EUA em um local eficiente e batedor de metas. Neste processo ele enfrenta diversas resistências e diferenças culturais retratadas com bom humor.

O filme não pretende ser profundo e tem toques de romance no ar, porém me chamou bastante atenção pelo contexto corporativo. Para quem ensina e trabalha com cultura organizacional pode ser um bom ponto de partida para discutir choques e diferenças de cultura nacional, e necessidade de adaptação. Eu, como professor de administração, estou sempre atrás de filmes para serem usados em sala de aula. Este é um que guardarei em minha lista.

De qualquer forma, para quem é simplesmente curioso e quer ver um filme que diverte sem a necessidade de pensar muito, vale a dica.

Trailer:

Aug 9, 2010
#cultura #cinema
La Valse d'Amélie Yann Tiersen

Yann Tiersen é um daqueles compositores que faz a melodia de suas músicas falar. Ouvir uma de suas obras deixa algo diferente no ar, ressoa na alma. O cara é um Francês multinstrumentista, que toca sanfona, píano e violino com a mesma intensidade e competência.  

Conheci sua música pelas trilhas sonoras dos ótimos filmes “O Fabuloso Destino de Amélin Poulain” e “Adeus Lenin”. 

Essa que postei é um dos clássicos de Amélie Poulain, “La Valse d´Amélie”

website do cara: http://www.yanntiersen.fr/

para ver ele em ação: http://www.youtube.com/watch?v=o8lPEgqE16o

Aug 9, 2010
Next page →
2010
  • January
  • February
  • March
  • April
  • May
  • June
  • July 8
  • August 17
  • September 6
  • October 1
  • November 2
  • December