Nos últimos anos percebe-se um crescimento dos movimentos que se auto proclamam adversários do consumo, ou anti consumo. Apesar de reconhecer a validade e importância de tais atitudes no questionamento da elevação da categoria de consumo a uma posição social e cultural central, creio ser necessário refletir sobre a profundidade e o enfoque dado à capacidade transformadora da realidade que o consumidor agência realmente tem em suas mãos. Digo isso não como desestimulo ou desqualificação de quem luta contra a chamada sociedade de consumo, mas sim como uma crítica que abre possibilidade para que se fortaleçam os argumentos e pontos de vista da resistência.
Primeiro é preciso situar os pressupostos de tais movimentos (aqui deixados propositalmente como uma categoria ampla). Simplificadamente, pode-se dizer que todos partem da percepção de que o ideal do consumo enquanto prática libertadora a partir da escolha individual fracassou em melhorar qualitativamente a sociedade. Temos mais e somos cada vez mais infelizes. Junto com esta constatação há uma crítica implícita, ou explícita, ao modelo político neoliberal, aos valores individualistas e ao poder invisível do livre mercado. O aumento da pobreza, a persistência da fome, o analfabetismo, a violência, a degradação da natureza, entre outros, são indicadores (números para os cartesianos!) deste processo que vendeu a promessa do bem estar geral pelo crescimento econômico e a distribuição das riquezas pelo mercado, e que entregou miséria e desigualdade em proporções nunca antes testemunhadas. Estes fatos provavelmente já seriam suficientes para qualquer pessoa com o mínimo senso de justiça sentir-se incomodada, legitimando questionamentos acerca do rumo que tomamos enquanto sociedade ocidentalizada na qual durante todas as crises as palavras de ordem dos governantes para seu povo é: continuem comprando!
Aqui cabe uma pequena ressalva conceitual. Criticar o consumismo é diferente de criticar o consumo. Há uma constante sobreposição entre estes dois termos. Consumir é um aspecto básico da vida. Ninguém vive sem consumir minimamente ar, alimentação e água. Já consumismo é o termo utilizado para designar o excesso de consumo, o consumo além das necessidades e desejos aceitáveis. Percebe-se que há uma dificuldade inerente neste processo de classificação, principalmente porque “aceitável” trata-se de uma categoria moral. Portanto, ser anti consumo é um contra-senso, é ser contra a própria vida. Ser contra o consumismo parece legítimo, mas é necessário discutir melhor e definir o que é o consumismo quando se fala nele, pois esta não é uma categoria dada e clara, como muitos aparentam pensar. Há uma tendência de naturalizar o uso de certos termos a partir da cultura, algo que pouco auxilia no aprofundamento das discussões sobre os temas.
Dessa última constatação decorre outro problema mais importante e mais central no assunto aqui tratado. Grande parte das críticas ao consumismo é feita com um viés culturalista marcante, ou seja, partem da idéia de que uma suposta cultura positiva, a do consumo inteligente, seria capaz de suplantar uma cultura negativa, a do consumismo. Este, sem dúvida, é um ponto crucial nesta reflexão. Criticar a partir da cultura é ignorar a construção ideológica que cria, reproduz e fortalece a própria cultura que, por sua vez, alimenta a ideologia, criando um circuito fechado e perverso sem rosto, sem nome e sem forma. O apagamento deste traço ideológico do capitalismo é resultado de um processo histórico que acabou legitimando a noção de um sistema natural e universal, incorporado como algo inerente a humanidade, espontaneamente gerado e constituído. Disso decorrem absurdos justificadores como as teorias que falam de uma ontologia agressiva e competitiva de homens como seres das cavernas predadores, sendo o capitalismo apenas uma sofisticação desta tendência que está dentro de nós (nos salvamos pelo contrato social).
Decorre disso que ao utilizar a cultura como ponto de partida, os movimentos que se intitulam contra anti consumistas perdem a força e o enraizamento da crítica, tornando-se, em sua origem, reprodutores e legitimadores da ideologia do consumo por não a discutirem em momento algum, seja por ignorância, seja por inocência. Pensando desta forma, falar em consumo consciente, consumo sustentável, consumo ético, ou consumo político sem perguntar por que e como nos tornamos uma sociedade de consumidores, torna-se um argumento sem peso, pois parece questionar o que é visto socialmente como natural. Algo como tentar mover uma pedra gigante com o uso das mãos. Talvez, se os movimentos anti consumo conseguissem expor às pessoas o ridículo de sua ignorância ou de seu cinismo, a discussão mudaria de nível, tornando-se muito mais convincente do que alardear o fim eminente do mundo para egoístas que mal se preocupam com o futuro de seus filhos além da solidez da herança financeira que deixarão como legado. Se o fenômeno do consumismo for visto pelo prisma da ideologia-cultura pode ser factível pensar em um mecanismo que faça uma alavanca coletiva capaz de finalmente mover a enorme pedra de seu lugar.
Para concluir, evitando receber o rótulo de pessimista ou fatalista, é importante salientar que a crítica da crítica feita aqui não invalida os movimentos anti consumo culturalistas. Por mais limitados que sejam em termos de mudanças sociais efetivas, tais ações chamam atenção para nosso maior desafio enquanto civilização, encontrar os meios de continuarmos existindo no futuro. Atrair atenção para este fato tem seu valor e merece respeito, assim como criar espaços de reflexão acerca dos comportamentos sociais e individuais. O tema não é novo, já foi dito inúmeras vezes que o capitalismo é um sistema que encontrará o fim em si mesmo, porém, torna-se algo cada vez mais urgente para quem se preocupa com a justiça (no sentido mais amplo) e com a permanência da vida na terra.
