espiral 3C - comportamento consumo cultura
Sobre a ideologia do consumo: uma discussão necessária

Nos últimos anos percebe-se um crescimento dos movimentos que se auto proclamam adversários do consumo, ou anti consumo. Apesar de reconhecer a validade e importância de tais atitudes no questionamento da elevação da categoria de consumo a uma posição social e cultural central, creio ser necessário refletir sobre a profundidade e o enfoque dado à capacidade transformadora da realidade que o consumidor agência realmente tem em suas mãos. Digo isso não como desestimulo ou desqualificação de quem luta contra a chamada sociedade de consumo, mas sim como uma crítica que abre possibilidade para que se fortaleçam os argumentos e pontos de vista da resistência.

Primeiro é preciso situar os pressupostos de tais movimentos (aqui deixados propositalmente como uma categoria ampla). Simplificadamente, pode-se dizer que todos partem da percepção de que o ideal do consumo enquanto prática libertadora a partir da escolha individual fracassou em melhorar qualitativamente a sociedade. Temos mais e somos cada vez mais infelizes. Junto com esta constatação há uma crítica implícita, ou explícita, ao modelo político neoliberal, aos valores individualistas e ao poder invisível do livre mercado. O aumento da pobreza, a persistência da fome, o analfabetismo, a violência, a degradação da natureza, entre outros, são indicadores (números para os cartesianos!) deste processo que vendeu a promessa do bem estar geral pelo crescimento econômico e a distribuição das riquezas pelo mercado, e que entregou miséria e desigualdade em proporções nunca antes testemunhadas. Estes fatos provavelmente já seriam suficientes para qualquer pessoa com o mínimo senso de justiça sentir-se incomodada, legitimando questionamentos acerca do rumo que tomamos enquanto sociedade ocidentalizada na qual durante todas as crises as palavras de ordem dos governantes para seu povo é: continuem comprando!

Aqui cabe uma pequena ressalva conceitual. Criticar o consumismo é diferente de criticar o consumo. Há uma constante sobreposição entre estes dois termos. Consumir é um aspecto básico da vida. Ninguém vive sem consumir minimamente ar, alimentação e água. Já consumismo é o termo utilizado para designar o excesso de consumo, o consumo além das necessidades e desejos aceitáveis. Percebe-se que há uma dificuldade inerente neste processo de classificação, principalmente porque “aceitável” trata-se de uma categoria moral. Portanto, ser anti consumo é um contra-senso, é ser contra a própria vida. Ser contra o consumismo parece legítimo, mas é necessário discutir melhor e definir o que é o consumismo quando se fala nele, pois esta não é uma categoria dada e clara, como muitos aparentam pensar. Há uma tendência de naturalizar o uso de certos termos a partir da cultura, algo que pouco auxilia no aprofundamento das discussões sobre os temas.

Dessa última constatação decorre outro problema mais importante e mais central no assunto aqui tratado. Grande parte das críticas ao consumismo é feita com um viés culturalista marcante, ou seja, partem da idéia de que uma suposta cultura positiva, a do consumo inteligente, seria capaz de suplantar uma cultura negativa, a do consumismo. Este, sem dúvida, é um ponto crucial nesta reflexão. Criticar a partir da cultura é ignorar a construção ideológica que cria, reproduz e fortalece a própria cultura que, por sua vez, alimenta a ideologia, criando um circuito fechado e perverso sem rosto, sem nome e sem forma. O apagamento deste traço ideológico do capitalismo é resultado de um processo histórico que acabou legitimando a noção de um sistema natural e universal, incorporado como algo inerente a humanidade, espontaneamente gerado e constituído. Disso decorrem absurdos justificadores como as teorias que falam de uma ontologia agressiva e competitiva de homens como seres das cavernas predadores, sendo o capitalismo apenas uma sofisticação desta tendência que está dentro de nós (nos salvamos pelo contrato social).

Decorre disso que ao utilizar a cultura como ponto de partida, os movimentos que se intitulam contra anti consumistas perdem a força e o enraizamento da crítica, tornando-se, em sua origem, reprodutores e legitimadores da ideologia do consumo por não a discutirem em momento algum, seja por ignorância, seja por inocência. Pensando desta forma, falar em consumo consciente, consumo sustentável, consumo ético, ou consumo político sem perguntar por que e como nos tornamos uma sociedade de consumidores, torna-se um argumento sem peso, pois parece questionar o que é visto socialmente como natural. Algo como tentar mover uma pedra gigante com o uso das mãos. Talvez, se os movimentos anti consumo conseguissem expor às pessoas o ridículo de sua ignorância ou de seu cinismo, a discussão mudaria de nível, tornando-se muito mais convincente do que alardear o fim eminente do mundo para egoístas que mal se preocupam com o futuro de seus filhos além da solidez da herança financeira que deixarão como legado. Se o fenômeno do consumismo for visto pelo prisma da ideologia-cultura pode ser factível pensar em um mecanismo que faça uma alavanca coletiva capaz de finalmente mover a enorme pedra de seu lugar.

Para concluir, evitando receber o rótulo de pessimista ou fatalista, é importante salientar que a crítica da crítica feita aqui não invalida os movimentos anti consumo culturalistas. Por mais limitados que sejam em termos de mudanças sociais efetivas, tais ações chamam atenção para nosso maior desafio enquanto civilização, encontrar os meios de continuarmos existindo no futuro. Atrair atenção para este fato tem seu valor e merece respeito, assim como criar espaços de reflexão acerca dos comportamentos sociais e individuais. O tema não é novo, já foi dito inúmeras vezes que o capitalismo é um sistema que encontrará o fim em si mesmo, porém, torna-se algo cada vez mais urgente para quem se preocupa com a justiça (no sentido mais amplo) e com a permanência da vida na terra.

Inovação: para quem?

Trilha Sonora do Post: Ice Cream Man - Tom Waits

Inovação tornou-se um jargão dos mais utilizados por todas as pessoas, do pipoqueiro ao presidente da coca-cola, passando pelo vendedor de sanduíche na praia e pelo desempregado. Uma busca por inovação no google retornou aproximadamente 4.230.000 resultados. A lógica de funcionamento da velocidade de criação e destruição do capital acelera negócios, lançamentos e declínios. Quem não cria algo novo desaparece. Quem não se atualiza fica velho. Quem não corre é atropelado. Este é um dos principais mecanismos do sistema de produção capitalista, pois garante um fluxo constante de novos bens sendo colocados no mercado, renovando desejos e alterando percepções sobre necessidades. A obsolescência é o fantasma gordo e rejeitado que, colocado ao lado da brilhante e sedutora novidade, torna-se uma questão de classe, de separação social por indicadores produtos/marcas/versões. A obsolescência pode ser tanto tecnológica quanto perceptiva (normalmente são as duas ao mesmo tempo). Pelo lado da tecnologia, fabricam-se novas versões ampliadas dos produtos, fazendo com o que o velho logo não seja mais capaz de desempenhar suas funções. Isto é facilmente observável nos computadores, videogames, televisores, etc. Já a obsolescência perceptiva é trabalho (em grande parte não intencional) dos designers que, ao modificarem o estilo e materiais dos produtos, fazem com que as versões mais antigas sejam evidenciadas como tal. O velho torna-se rapidamente identificável como fora de moda, feio, inadequado. Isso por si só já é algo para se pensar, pois tudo que chega ao final do ciclo de vida deve ser descartado. Entretanto, há uma outra conseqüência perversa que muitas vezes passa despercebida. Esta mesma lógica, parcialmente racional no caso dos produtos (que ao menos pode ser explicada pela idéia de “viver melhor” - seja lá o que esta qualificação melhor quer dizer), acaba contaminando todo tecido social e cultural pela transversalidade característica do discurso. Assim, indivíduos também tornam-se obsoletos, como também sentimentos, amigos, paixões, trabalhos, idéias, obrigando as pessoas a acelerarem suas próprias vidas, tornando-se instáveis e inseguros pontos de vista em constante transformação. Nos venderam a idéia pós-moderna de múltiplas identidades, como se fosse possível tornar-se outra pessoa, ou vestir outra máscara, como na troca das vitrines com as roupas da estação. Qual o preço que pagamos para viver assim? Como criar e fortalecer valores (algo esquecido por alguns) em uma sociedade que escorre entre os dedos como a areia de praia? Como construir uma nova forma de relacionamento menos destrutiva com o meio ambiente se ele é apenas um recurso para inovação? Como melhorar nossas relações humanas se amizades tem medida de desempenho? Como sermos nós mesmos se nos dizem que temos que ser “quem funciona” (ao estilo mais bizarro de uma revista como a Você S.A.)? Eu me preocupo seriamente com isso e percebo em minha própria subjetividade a força desta contradição, pois também tenho desejos e quero ter um televisor de alta definição. Saber não é suficiente para mudar, mas já é um passo a mais com relação à ignorância ou inocência da simplificada escolha de medir o bem estar pelo consumo e pela inovação.  

sustentabilidade: verdades e mentiras

Esta é a base do meu ponto de vista apresentado ontem no debate “Sustentabilidade: Verdades e Mentiras” realizado pelo IJA no instituto Goethe contando com a participação de Amyra El Khalili, Antônio Libório Philomena, José Truda Palazzo e eu. Foi uma interação muito interessante. Confiram. 

“Minha análise parte do princípio, da realidade de um sistema produtivo capitalista que tem na maximização do lucro pelas firmas e na maximização da utilidade pelo consumidor seu mecanismo básico de funcionamento. Cabe lembrar que este não é um sistema natural, sendo fruto de um processo histórico e cultural do desenvolvimento da civilização que se foi historicamente criado pode ser historicamente modificado.

Neste sistema, o capital econômico é a mola propulsora da sociedade. Precisamos expandir a produção para continuar crescendo, para gerar mais empregos, para continuar consumindo, para continuar expandindo a produção. É uma lógica circular e suicida. Como já dizem faz tempo, o capitalismo é auto destrutivo e cria seu próprio fim enquanto se desenvolve.

Dentro do sistema capitalista existem outras formas de capitais, como o capital social, o capital simbólico e o capital natural. O capital econômico é, e sempre foi, predominante, utilizando-se do capital natural como fonte de recursos. Entretanto, com o crescimento da preocupação ambiental, surgiu uma divisão entre estas duas formas de capital, ou entre os ambientalistas e os economistas ortodoxos. De um lado temos os primeiros liderando uma discussão sobre o fracasso do capitalismo e sobre a impossibilidade de manter o padrão de vida atual por muito tempo (o que tem seu fundo de verdade), de outro temos os economistas defendendo a inovação e a lógica do desenvolvimento como essenciais para o desenvolvimento social e a continuação da satisfação das necessidades humanas (o que também está certo) – sendo o uso dos recursos naturais otimizado pela tecnologia ao longo do tempo. 

O fato é que nenhuma explicação que enxergue só por uma perspectiva será capaz de dar conta de um problema tão complexo como este. Até porque, em ambas abordagens existem problemas de coerência interna. Deixar o sistema capitalista de lado no estágio atual de desenvolvimento mundial implicaria necessariamente em perdas sociais. Manter o sistema capitalista no ritmo crescente de produção e consumo nos levaria a um colapso ambiental e institucional. O radicalismo de nenhum dos lados ajuda. O que se faz necessário é um amplo diálogo calcado em perspectivas transdisciplinares que trabalhem na convergência de pontos de vista. Os capitais econômico e natural precisam se harmonizar (ao máximo possível) para acabar com a idéia de conflito e de opostos hoje vigente. Sempre me lembro daquela frase: “dividir para conquistar”, é assim que estamos sendo levados a um ponto cada vez mais perigoso.  

Mas é claro, sejamos realistas, da maneira como vivemos a sustentabilidade não é nada mais que um conceito utópico, pois para produzir, algum nível de interferência no meio ambiente sempre será necessário. Mesmo assim, mesmo sendo inatingível, a sustentabilidade deve ser buscada, norteando a idéia de reduzir os efeitos do homem no planeta. Para isso, por um lado, é preciso educar os consumidores, dando a eles a capacidade de decidir em qual empresa ou em qual ideologia produtiva vão investir seu dinheiro. Comprar é também um ato político, uma espécie de voto que pode punir (não compra) ou premiar (compra e recomendação), e isso deve ser incentivado através da disponibilidade de informações claras e confiáveis. Por outro lado, é preciso educar também o empresário, dando a ele condições técnicas de modificar seu processo ou produto para um patamar menos agressivo para a saúde e o meio ambiente. Para completar, necessitamos de fiscalização e incentivos governamentais. Colocar critérios ambientais nos editais de financiamento de pesquisas, inovação e empreendedorismo e incentivar boas práticas por redução tributária……. ninguém disse que seria fácil…….

O fato é que não existe formulismo nem solução institucional milagrosa, é uma construção, é isso que estamos fazendo agora, neste momento. Que a caminhada esteja apenas começando…

Produção e Marx - base

O modo de produção capitalista funda-se sobre a apropriação privada dos grandes meios de produção e de subsistência (instrumentos de trabalho, terra, víveres) pelos capitalistas (ou seja, os proprietários de grandes somas de dinheiro). Eles utilizam parte de seu capital para comprar a força de trabalho de uma outra classe social, o proletariado, obrigado a vender essa força de trabalho, pois não tem mais acesso aos meios de produção para produzir sua subsistência. É essa relação antagônica entre o capital e o trabalho assalariado, tornada possível pela generalização da produção mercantil (a transformação dos meios de produção e da força de trabalho em mercadorias) que funda o novo modo de produção.”

MANDEL, Ernst. O lugar do marxismo na história. São Paulo: Xamã, 2001.

SURPLUS e a Dialética do Controle


Anthony Giddens, sociólogo britânico, dedicou sua vida ao pensar da sociedade em que vivemos. Um dos conceitos centrais de sua obra é a idéia da dialética do controle, tema deste texto. Por dialética aqui entende-se método do diálogo, o ir e vir de pontos e contrapontos que criam novas vias de pensar e compreender o mundo. A dialética trata do movimento constante entre diferentes perspectivas, por vezes antagônicas, sem nunca chegar há um local definitivo. É uma lente para enxergar o mundo, entre tantas outras que existem, uma lente que dá conta das transformações constantes e dinâmicas de nossa vida, dos esforços que existem nos embates de pontos de vista, da metamorfose ambulante de opiniões. 

Voltando-nos a Giddens, para ele, a dialética do controle é a idéia segundo a qual “todas as formas de dependência oferecem recursos por meio dos quais aqueles que são subordinados podem influenciar as atividades de suas superiores”. Em outras palavras, todo movimento gera conseqüências não premeditadas, pura dialética. Quanto mais eu evoluo tentando dominar, mais ferramentas eu crio para os que são dominados resistir.

Interessante que ontem enquanto assistia o excelente “vídeo manifesto” chamado “SURPLUS: Terrorized Into Being Consumers” (veja abaixo) pensei nele como mais um exemplo do que essa dialética do controle efetivamente significa. Os mesmos meios (midiáticos) utilizados para propagar mensagens de conformismo podem disseminar a transformação. A propaganda serve para as minorias (se organizarem em torno de uma “idéia comunidade”), assim como serve para vender mais fast food em um mundo super saturado de informações e taxa de colesterol. Surplus faz uma crítica aberta e exposta à sociedade de consumo, defendendo a tese de que nos “venderam” uma idéia de liberdade que na verdade é uma prisão. O papo não é novo, mas a linguagem visual é extraordinária. A montagem e edição do filme, cheio de imagens de arquivos sincronizadas com a música, utilizando loopings de trechos de textos para marcar um ritmo quase hipnótico, está à altura de qualquer produção cinematográfica de alta qualidade. O ponto é que, quando a indústria evolui, quando os meios se sofisticam e se popularizam a partir da necessidade de baixar os preços dos produtos para atingir mais pessoas, o potencial comunicativo e informacional se descentraliza. Câmeras full hd com custo acessível, softwares de edição de imagem descomplicados, criatividade, conteúdo e internet como meio de divulgação podem causar um estrago proporcionalmente tão eficiente na busca por seus objetivos quanto mais uma produção mela cueca hollywoodiana atrás das cifras.

Na periferia, nas margens, a resistência cultural opera com a geração anterior da tecnologia lançada do centro. Com o tempo da inovação cada vez mais acelerado, as possibilidades são imensas… e vão crescer! Tudo depende de seu propósito…

Assista abaixo o vídeo SURPLUS legendado em português.

Crises of Capitalism - RSA Animate

Assunto essencial que muitos evitam: a crise do sistema capitalista. A coisa toda foi engendrada com tanta perícia que diversas pessoas inteligentes acreditam cegamente que o capitalismo e a competição são características naturais dos seres humanos, esquecendo e ignorando que vivemos em uma estrutura social e econômica que foi engenhosamente criada ao longo de centenas de anos. 

Mesmo sem uma solução de escala global para frear os efeitos perversos do desenvolvimento, é possível criar micro espaços de mudança de paradigma, começando por nossas próprias vidas. 

Detalhe: reparem no tempo do vídeo - 11:11