Para quem escrevo? Escrevo para quem quiser ler. Escrevo para mim mesmo. Para meu outro eu. Alguém. As certezas humanas são instrumentos para redução de ansiedade. A verdade das coisas é uma ilusão. Não existe objeto isolado da subjetividade (pelo menos não para nós, humanos). Vivemos em uma realidade que é uma enorme teia multidimensional de relações, tecido social de sentidos compartilhados. Eu sou eu, mas sou muitos, e o outro são múltiplos. A ciência cartesiana é sonho prepotente, como se pudéssemos encontrar uma verdade última a partir do método e da construção do conhecimento. Quem ainda não percebeu que critérios de autoridade diversos (títulos e titulações) são utilizados como subterfúgio para tentar direcionar nossas vidas deveria acordar. O sono da perfeição acabou. Estamos sendo chamados para enfrentar nossa condição humana, imperfeita e frágil frente ao universo. Mais livre das falsas certezas podemos caminhar com mais tranqüilidade, com menos imposições. Não existe um caminho, existe caminhar. Cada passo pode ser celebrado como uma pequena vitória, se for um passo consciente de si mesmo. Esteira rolante ou pé após pé? Você tem medo do que? O fim é inevitável para quem vive, então aproveite a jornada…

Eu tenho uma visão, uma esperança
Uns chamam de loucura
Outros de utopia, demagogia
Eu chamo de sonho
Um pequenino e inocente sonho meu
Um sonho de um novo mundo
Ou uma nova forma de ver o velho
Reinventar, ou começar de novo
O efeito é o mesmo, movimento
Mudança, cambio, (r)evolução
Esse novo mundo tem como base valores humanos
Respeito às diferenças, compreensão
Pessoas buscando se conhecer
Se aceitar, encontrar seu próprio caminho
Assumindo sua individualidade
Sua responsabilidade no processo evolutivo
E lá, por serem humildes e generosos,
Os habitantes desse lugar não se acham maiores que ele
Não havendo uma relação de exploração com o planeta
Todos são parte da natureza e têm consciência
Que deus está dentro de cada um
E que a felicidade está muito mais próxima do que parece
Contida na simplicidade de um sorriso franco, de uma palavra amiga,
Da contemplação de um por do sol, da lua cheia
Do mar, do ar, da montanha, do céu
Das infinitas possibilidades
Porque lá o que realmente gostamos são das coisas naturais
Que têm inestimável valor e nenhum custo
Pois o quanto você tem não é medida de sucesso
E sim aquilo que você faz, quem você é
Ah e esse mundo sem nome
Esse mundo…
É um mundo muito louco
Para aqueles que vendaram seus corações
E compraram seu lote de pseudo felicidade
No reino frenético do consumo
Então se você sonha comigo, cuidado!
Algumas pessoas podem ficar agressivas
Ao verem seu castelo de areia desmanchando
Diante de seus olhos pouco acostumados
A ver uma luz que não seja o brilho do ouro
Portanto tenhamos paciência, o processo é lento
E nem todos estão prontos para simplificar suas vidas
Esse é meu sonho, um sonho de liberdade
E eu te convido a sonhá-lo junto
(re) nascer
Sob a luz incandescente uma figura imóvel está sentada na cadeira olhando a memória, assistindo o filme que conta a história de sua vida, composta por suor, sorrisos e respeito. Sempre fora ótimo em inventar narrativas, criar fantasias, refazer o mundo à sua maneira. Era praticante convicto da arte do sonho, vulgo sonhador, e com a mente voava distâncias. Estava procurando uma fuga da realidade, da real cidade, do complexo, da complexidade. Observava o mundo girando conectado aos satélites, aquilo sim era loucura. Afinal porque trabalham tanto? Porque jogam suas vidas na rotina? Porque se deixam dominar tão facilmente, seduzidos pelo brilho da prata, vendendo a alma ao diabo por esmolas… Ao olhar para a imensidão do universo, como pode o ser humano achar que está sozinho? Somente tamanho egoísmo poderia explicar a origem da ganância (essa petulância de achar que riqueza é acumulo de capital). De que adianta ter tanto dinheiro se no fim dos dias vamos todos ao mesmo lugar, ficaremos todos iguais uma vez mais, reduzidos ao pó. Ele ria, se um dia fosse vender sua alma não seria por dinheiro, nem por poder, isso era secundário, um jogo mundano que não fazia sentido, já que para ele a verdadeira fortuna é a sabedoria capaz de te libertar (e ser livre é sua única chance de ser feliz..).
No reflexo do espelho via a si mesmo, seria ele visto da mesma maneira pelos outros? Ao silenciar a mente parado por alguns instantes sentia vontade de transformar, deformar, recriar…. refazendo aquilo que é inédito, para mais uma vez renascer…..
por Paulo Abdala (escrito em algum dia perdido de 2008)

Abaixo reproduzo um trecho de um livro do Jung chamado “Arquétipos e inconsciente coletivo”. Neste texto ele fala de uma maneira lírica, profunda e bela sobre a busca do auto conhecimento, o encontro com a própria sombra e a necessidade de explorar outras realidades para vencer certos obstáculos.
“Verdadeiramente, aquele que olha o espelho da água vê em primeiro lugar sua própria imagem. Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fiel mente o que quer que nele se olhe; ouseja, aquela face que nunca mostra mos ao mundo, porque a encobrimos com Ά persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira.
Esta é a primeira prova de coragem no caminho interior, uma prova que basta para afugentar a maioria, pois o encontro consigo mesmo per tence às coisas desagradáveis que evitamos, enquanto pudermos projetar o negativo à nossa volta. Se formos capazes de ver nossa própria sombra, e suportá-la, sabendo que existe, só teríamos resolvido uma pequena par te do problema. Teríamos, pelo menos, trazido à tona o inconsciente pes soal. A sombra, porém, é uma parte viva da personalidade e por isso quer comparecer de alguma forma. Não é possível anulá-la argumentando, ou torná-la inofensiva através da racionalização. Este problema é extrema mente difícil, pois não desafia apenas o homem total, mas também o ad verte acerca do seu desamparo e impotência. As naturezas fortes - ou de veríamos chamá-la fracas? - tal alusão não é agradável. Preferem in ventar o mundo heróico, além do bem e do mal, e cortam o nó górdio em vez de desatá-lo. No entanto, mais cedo ou mais tarde, as contas terão que ser acertadas. Temos porém que reconhecer: há problemas simplesmente insolúveis por nossos próprios meios. Admiti-lo tem a vantagem de tor nar-nos verdadeiramente honestos e autênticos. Assim se coloca a base para uma reação compensatória do inconsciente coletivo; em outras pala vras, tendemos a dar ouvidos a uma idéia auxiliadora, ou a perceber pensa mentos cuja manifestação não permitíamos antes. Talvez prestemos aten ção a sonhos que ocorrem em tais momentos, ou pensemos acerca de acon tecimentos ocorridos no mesmo período. Se tivermos tal atitude, forças auxiliadoras adormecidas na nossa natureza mais profunda poderão des pertar e vir em nosso auxílio, pois o desamparo e a fraqueza são vivência eterna e eterna questão da humanidade. Há também uma eterna resposta a tal questão, senão o homem teria sucumbido há muito tempo. Depois de fazermos todo o possível resta somente o recurso de fazer aquilo que se fa ria se soubéssemos o quê. Mas em que medida o homem se conhece a si mesmo? Bem pouco, como a experiência revela. Assim sendo, resta mui to espaço para o inconsciente. Como se sabe, a oração exige uma atitude semelhante. Por isso tem um efeito correspondente.
A reação necessária e da qual o inconsciente coletivo precisa se ex pressa através de representações formadas arquetipicamente. O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra. A sombra é. no entanto, um desfiladeiro. um portal estreito cuja dolorosa exigüidade não poupa quem quer que desça ao poço profundo. Mas para sabermos quem somos, temos de conhecer-nos a nós mesmos, porque o que se segue à morte é de uma amplitude ilimitada, cheia de in certezas inauditas, aparentemente sem dentro nem fora, sem em cima, nem embaixo, sem um aqui ou um lá, sem meu nem teu, sem bem, nem mal. É o mundo da água, onde todo vivente flutua em suspenso, onde co meça o reino do “simpático” da alma de todo ser vivo, onde sou inseparavelmente isto e aquilo, onde vivencio o outro em mim, e o outro que não sou, me vivência